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Cultura

Niall Ferguson escreve um livro que pretende ser uma teoria geral das catástrofes

Rui Duarte Silva

Em “Condenação — A Política da Catástrofe”, Niall Ferguson fica-se por ideias que, por vezes, estão fora da História

26-09-2021

A primeira questão que este livro põe tem a ver com a sua razão de ser. Porque é que um historiador reputado, autor de obras populares sobre história da finança, do imperialismo e da guerra, acha oportuno fazer um livro sobre a pandemia do coronavírus enquanto ela decorre (a um dado momento, Ferguson diz que está a escrever em outubro de 2020, embora outra passagem indique que as eleições presidenciais americanas já aconteceram)? A resposta terá a ver com o perfil de intelectual que Ferguson vem construindo há anos, em colunas, em conferências e até em livros encomendados por figuras ligadas ao poder, como Henry Kissinger — cuja biografia, a pedido do próprio, Ferguson começou a escrever num tomo publicado há anos em Portugal. O historiador adquiriu gosto pela intervenção em assuntos correntes e, ainda por cima, como diretor de consultora cujo site diz que aconselha “um grupo seleto e extremamente limitado de clientes nos sectores energético, financeiro, industrial e tecnológico”, convém-lhe mostrar que está em cima das últimas tendências sociais. Figura assumidamente de direita, há uns anos foi apanhado em e-mails a incentivar a investigação de eventuais podres pessoais de um estudante de esquerda na sua universidade (confrontado, Ferguson respondeu que lamentava ter escrito esses e-mails, e também lamentava que os tivessem divulgado...). As suas teses raramente andam longe da polémica política, seja a defender os benefícios do imperialismo ou a defender, como faz neste livro, que líderes como Donald Trump e Boris Johnson tiveram muito menos responsabilidade do que se julga na dimensão que a pandemia atingiu nos seus países. Como princípio geral, Ferguson prefere culpar os vícios e erros da burocracia intermédia, uma opinião que liga bem com a imagem de um frequentador de conclaves como Davos.

Era justamente em Davos que ele se encontrava em janeiro, quando a pandemia se começou visivelmente a tornar uma ameaça séria. Na sua versão, as pessoas lá pouco ligaram ao assunto, pois estavam sobretudo preocupadas com a responsabilidade ambiental e a boa governação — haverá algo mais faccioso, e típico, do que considerar o aquecimento global como uma distração dos assuntos importantes? Para Ferguson, que há anos vinha escrevendo sobre pragas nas suas obras históricas, conforme nos recorda, a perspetiva era um pouco diferente. Mas nem isso nem a tosse persistente que o assolou em fevereiro o impediram de continuar um intenso programa de viagens que o levou da Ásia à Europa e à América.
Inconsistências à parte, é justo considerar este livro por aquilo que ele contém. E aí a constatação é: muita informação diferente. Pretendendo ser uma história teoria geral das catástrofes que têm atingido a espécie humana, ele aborda em prosa escorreita e recheada das pandemias às guerras, passando pelas crises financeiras, os desastres industriais, a inteligência artificial, os terramotos, as erupções vulcânicas e outros acidentes previsíveis ou imagináveis, nem que seja apenas pela ficção científica. Recorrendo a terminologia emprestada, Ferguson fala em rinocerontes cinzentos, cisnes negros e reis-dragões, conforme o grau de previsibilidade e a extensão potencial dos efeitos. Não se pode dizer que essa tipologia acrescente muito à nossa compreensão das catástrofes, e distinções adjacentes — entre risco calculado e incerteza, por exemplo — também não o fazem. Como não o fazem aquelas considerações sobre a “geometria fractal das catástrofes”. A ideia de que um desastre pode acontecer a vários níveis, repetindo padrões semelhantes em cada um deles, está longe de ser original.