Cultura

Arroios celebra a interculturalidade com livros, conferências e gastronomia oriental

O Salão Nobre da Biblioteca de São Lázaro, criada em 1883, destaca-se pelo seu desenho hexagonal, pelo mezanino e pelo mobiliário da época que cria uma atmosfera única
Indio Nelson

As mais de 90 nacionalidades que vivem nesta freguesia de Lisboa incluem um número significativo de pessoas oriundas do Médio Oriente e Norte de África. Estas regiões inspiram um programa cultural que começa esta segunda-feira e visa, a prazo, combater a criação de guetos e a proliferação de extremismos

21-06-2021

A mais multicultural das freguesias lisboetas — Arroios, onde vivem pessoas de 92 nacionalidades — faz jus a essa condição e, por estes dias, realiza uma Semana da Cultura e da Gastronomia do Médio Oriente e Norte de África com o propósito de celebrar e promover “a interculturalidade”.

O programa, organizado pela Junta de Freguesia local, arranca esta segunda-feira com a inauguração oficial de uma nova secção na Biblioteca de São Lázaro — a biblioteca municipal mais antiga de Lisboa, criada em 1883 —, dedicada ao Médio Oriente e Norte de África. Uma percentagem significativa dos imigrantes que vivem em Arroios provém destas regiões.

O espaço — que fica na Rua do Saco, entre o Intendente e o Martim Moniz — conta já com um espólio de cerca de 1000 livros em português, árabe, turco, farsi, urdu, bengali e hindi, escritos por portugueses, mas também por autores do Médio Oriente e Norte de África.

Evitar guetos e combater extremismos

O seu público-alvo é a comunidade imigrante, cada vez mais numerosa, para que aprenda a língua e os hábitos culturais do país que a acolhe e, assim, evite viver numa lógica de “gueto”. Mas também a população nascida e criada em Portugal, para que conheça as culturas dos estrangeiros que vivem entre si e não cultive “ódios que possam levar a extremismos”, alerta ao Expresso Maria João Tomás, coordenadora cultural e científica do projeto.

Apesar de a inauguração oficial ter sido adiada pelas restrições impostas pela pandemia, a Biblioteca está em funcionamento desde março e já são visíveis alguns dos resultados. “Em maio, tivemos 120 visitas e foram requisitados [para levar para casa] os livros oferecidos pelo Instituto Camões dos autores portugueses traduzidos para árabe”, realça a professora da Universidade Autónoma de Lisboa.

Outro tipo de livros especialmente procurados são os infantis em línguas orientais. “Muitas destas famílias têm filhos a aprender português, mas querem que eles sejam bilingues. Muitas destas pessoas saíram dos seus países sem rigorosamente nada, e não têm livros nas suas línguas para os filhos.”

Aprender a língua é fundamental

O projeto tem vindo a tomar forma graças a uma grande conjugação de esforços entre instituições.

  • O apoio do Instituto Camões e do Alto Comissariado para as Migrações tornará possível a divulgação do português junto dos imigrantes — o desconhecimento da língua é dos maiores entraves à integração das comunidades migrantes. “Vamos ensinar o português grau zero, que ministra ensinamentos básicos de comunicação aos imigrantes que não sabem falar rigorosamente nada de português. O grau zero é aquele nível de ensino que, após adquirido, permitirá que estas pessoas frequentem o nível 1, exigido para que possam obter os papéis para se legalizarem”, explica Maria João Tomás.
  • A Câmara Municipal de Lisboa vai assegurar a catalogação dos livros, para que os títulos fiquem disponíveis na rede BLX - Bibliotecas de Lisboa.
  • O Instituto Politécnico de Lisboa irá certificar os cursos planeados para setembro, que vão desde a Lisboa Árabe às literaturas árabe ou persa. E irá montar uma videoteca onde ficarão disponíveis os vídeos das conferências a realizar.
  • À Organização Internacional para as Migrações foi pedido um processador de texto em línguas não-europeias.
  • A Fundação Oriente planeia fazer visitas guiadas às suas coleções com pessoas oriundas desses países para que possam dar o seu ponto de vista pessoal, acerca da importância que aqueles objetos tiveram ou ainda têm na vida quotidiana nesses países.
  • O Museu Nacional de Arte Antiga planeia acolher, lá para outubro, visitas de imigrantes e refugiados para que possam conhecer a cultura portuguesa.
  • As embaixadas dos países do Médio Oriente e do Norte de África participam divulgando iniciativas culturais próprias e através da doação de livros. Maria João Tomás recorda que este projeto teve início com a doação de umas centenas de livros por parte das embaixadas da Tunísia e dos Emirados Árabes Unidos.

O exemplo do Mezze

Coincidente com a inauguração da Biblioteca, terá lugar a Semana da Gastronomia do Médio Oriente e Norte de África, entre 21 e 26 de junho, que mobiliza restaurantes de cozinha árabe, turca, iraniana, marroquina, síria, entre outras. Os espaços terão menus especiais e promoções. Um dístico para o exterior identificará os restaurantes aderentes, cuja lista pode ser consultada neste link.

Além da degustação de sabores orientais, para os portugueses será oportunidade para atestarem paladares familiares à gastronomia nacional e assim descobrirem vestígios do legado muçulmano no país.

Quem quiser levar a experiência gastronómica mais a sério terá de esperar pouco: em julho, está previsto um workshop de culinária realizado por duas refugiadas fugidas às guerras no Iraque e na Síria. “Uma delas não sabe escrever nem ler”, destaca Maria João Tomás. “Sabe as receitas todas de cor, não estão escritas em lado nenhum. São receitas de património.”

Esta iniciativa, em concreto, visa também dar confiança às mulheres, para “que ganhem confiança e, de hoje para amanhã, possam começar um trabalho de take-away. Foi assim que começou o Mezze”, recorda Maria João Tomás.

Situado no Mercado de Arroios, o Mezze abriu portas em 2017, após refugiados sírios arregaçarem as mangas, e constitui um exemplo de sucesso ao nível da integração de imigrantes. Esta semana, será um dos restaurantes participantes na semana gastronómica.

Para lá da inauguração da biblioteca e da semana gastronómica, na próxima quinta-feira arranca um ciclo de conferências que será detalhado esta segunda-feira. As palestras serão transmitidas online na página de Facebook da Junta de Freguesia de Arroios. Irão não só promover a partilha de conhecimento relativo a aspetos das culturas destes países, como realçar as pontes que existem com a cultura portuguesa.