O ladrão charmoso do título distinguiu-se na literatura francesa do início do século XX pela elegância dos seus roubos e pela genialidade dos seus disfarces, foi inúmeras vezes levado ao cinema e à TV e é uma figura popular, embora talvez as aventuras de “Arsène Lupin”, personagem de ficção criado por Maurice Leblanc (1864-1941), já não digam muito às gerações mais novas. No entanto, “Lupin” não é uma adaptação, procura mais naquela fonte uma ideia geral de personagem do que qualquer linha narrativa contada tel quel por Leblanc nos seus folhetins. E tem um ‘gancho’ que agarra (aqui sim há um ponto comum entre série e matriz literária): é que o herói é um camaleão autêntico, um mestre do fingimento, homem de mil caras. Torna-se literalmente impossível prever em cada episódio como e quando vai ele pregar mais uma rasteira ao espectador. Convém ainda sublinhar em abono da série francesa que se “Lupin” mudou o tempo e a origem do herói, não lhe traiu o espírito. Também aqui estamos perante um fora da lei com uma certa aura de Robin dos Bosques e o coração no lado certo, ele que tende a castigar, com um apurado sentido de justiça, quem é bera de verdade.
“Lupin” juntou ao desembaraço com que narra as suas histórias um elenco com carisma liderado por uma das maiores vedetas atuais do hexágono — Omar Sy —, um naipe de secundários de nível (Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Nicole Garcia...) e, não menos importante, a imagem de uma Paris de cartão turístico — o primeiro episódio da série passa-se no Museu do Louvre e no Jardim do Luxemburgo. E o resultado está à vista: “Lupin” é um êxito da Netflix desde que chegou aos ecrãs este mês, batendo recordes de audiência e trepando nos Tops 10 da plataforma, Portugal incluído. Tal como assinalou o diário “Libération”, que ficou intrigado com o fenómeno e o investigou, “Lupin” não só ultrapassou em popularidade séries como “Gambito de Dama” como conseguiu infiltrar-se nas listas de séries mais vistas nos Estados Unidos pelos utilizadores do gigante do streaming, coisa nunca vista numa obra falada em francês (que os americanos têm visto dobrada em inglês). “Um triunfo sem fronteiras inédito já que que as aventuras de Omar Sy como ladrão-cavalheiro estão também à cabeça dos conteúdos Netflix consumidos em dezenas de outros países”, escreveu o “Libé”, espantado pelo impacto deste milagre gaulês em mundo confinado.