O mais difícil em “Tiger” é saber por onde começar. Este documentário levanta taças dos Masters a um ritmo alucinante, fixa uma audiência deslumbrada, comentadores boquiabertos pela genialidade das tacadas — são momentos que fizeram e continuam a fazer a glória do maior golfista de todos os tempos. Mas terá isso importância neste retrato? A verdade é que não é para esse caminho que “Tiger” nos convida e, a nível dramático, há material muito mais interessante a sublinhar neste trabalho. Impressiona, isso sim, ver aquelas imagens de arquivo dos anos 70 em que um bebé de dez meses, pronto a ensaiar os primeiros passos, já é ensinado pelo pai a familiarizar-se com um taco. Toda a gente sabe quem é a figura retratada, pelos melhores ou pelos piores motivos. Mas o que nem todos sabem é que ela foi moldada desde o berço para ser a lenda em que se tornou pelo seu pai, Earl D. Woods (1932-2006), oficial do exército e veterano de duas missões na Guerra do Vietname.
Sobre “Tiger” podíamos falar da comoção do depoimento da sua primeira namorada, Dina Parr, quando ela conta, com uma sinceridade desarmante, que “só queria proteger a doçura dele”. Podíamos falar da timidez crónica do golfista sempre que uma câmara se aproxima do seu rosto. Ou do desabafo em que o atleta recorda como foi tantas vezes expulso em miúdo dos campos de golfe só porque era negro — racismo que aquele desporto ‘branco’, frequentado pela alta sociedade, tanto tardou a admitir. Curioso: alguns anos depois, o mesmo viria a suceder no mais elitista e financeiramente extravagante desporto do mundo — a Fórmula 1 — com o aparecimento de outro ‘rei negro’ que ninguém consegue destronar, Lewis Hamilton.