Cultura

Welket Bungué, o luso-guineense que brilha em Berlim

O filme, também premiado no Festival de Estocolmo, foi uma das revelações da Berlinale do ano passado. Agora estreia-se em Portugal

É guineense de etnia balanta e português, ator, realizador, performer e está à cabeça do elenco de “Berlin Alexanderplatz” numa interpretação notável. O filme abre a mostra Kino, que decorre na Filmin até quarta-feira

23-01-2021

O opus magnum de Alfred Döblin, o mesmo romance de 1929 que em 1980 deu origem a uma mítica série assinada por Rainer Werner Fassbinder, tem o cheiro putrefacto do fim de uma era, adverte com antecipação o triunfo do nacional-socialismo na Alemanha, e a sua história é agora atualizada ao presente, com mudanças associadas também ao protagonista. No filme “Berlin Alexanderplatz”, de Burhan Qurbani, cineasta germânico de ascendência afegã que tem aqui o seu trabalho mais exigente e arriscado até à data, Franz Biberkopf não é alemão nem saiu da cadeia após matar a namorada Ida. É o refugiado guineense “Francis de Bissau”, que chegou à Europa a nado após naufragar na mesma travessia em que Ida morreu afogada. Chegado a Berlim, só quer sobreviver. E é aqui que chegamos a Welket Bungué, que tem o papel principal e arranca dele uma prestação esplêndida. “Francis é um homem forte, batalhador, e ingénuo ao mesmo tempo, quer ser bom e não consegue”, contou-nos ele há dias numa conversa telefónica entre Lisboa e Bissau. “É um mártir vivo.”

Welket tem apenas 32 anos e já um percurso fantástico de artista multidisciplinar: é ator de teatro e cinema, realizador, performer; no teatro o trabalho de palco está frequentemente ligado à coreografia e à dança – prova disso é o seu espetáculo “Tchon di Balanta”. Como cineasta, o seu trabalho divide-se entre o “documentário experimental, a videoarte, o filme de intervenção e o cinema mobile, feito com telemóveis”, tal como “Cacheu Cuntum”, que gera uma interação entre a memória do passado da escravatura e uma “juventude promissora que fará a Guiné-Bissau de amanhã.” Welket nasceu naquele país em 1988, em Xitole, é de etnia balanta, veio para Portugal com três anos. Entre os 11 e os 19 viveu no Alentejo com o irmão, num internato, na Casa do Estudante de Beja, e foi ali, em 2005, que começou a fazer teatro. “Fundámos um coletivo de teatro amador.”

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