Cultura

“One Night in Miami”. O encontro imaginário de quatro ícones da experiência negra dos anos 60 americanos

Quatro ícones afro-americanos dos anos 60 debatem a experiência negra nos EUA em “One Night in Miami”. Estreia-se hoje na Amazon Prime Video

16-01-2021

A primeira vez que vemos Cassius Clay (papel de Eli Goree) em “One Night in Miami” é o momento em que ele vai ao tapete com um upper cut do britânico Henry Cooper num combate em Wembley, em 1963, que ele ganharia, embora o filme o deixe prostrado por instantes e não mostre essa vitória (só muitos anos depois sairia ele derrotado de um ringue de boxe pela primeira vez). Nessa altura, Cassius ainda não era Muhammad Ali após a sua conversão ao islamismo e somava vitória após vitória até ao combate seguinte em que se sagraria pela primeira vez campeão do mundo. De seguida e sem aviso, passamos para um concerto de Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) no mítico Copacabana repleto por uma ambiência familiar e branca. Cooke, o “Rei da Soul” e talento imenso ceifado tão cedo por uma morte estúpida, já era então uma estrela ascendente da música negra com dezenas de hits, mas o que “One Night in Miami” nos mostra é o racismo escancarado daquela plateia, o embaraço dos ouvintes que, de mesa em mesa, vão abandonando a sala, incomodados pela presença do artista negro. Depois é Jim Brown (Aldis Hodge) quem dá à costa, nome incontornável (e hoje uma lenda viva) da NFL do futebol americano, atleta dos Cleveland Browns que já então dispensava quaisquer apresentações no mundo do desporto. De regresso à sua Geórgia natal, Jim decide render visita a Mr. Carlton, um conterrâneo rico e branco que o admira. No final, este guarda-lhe uma cruel despedida, desabafando que a sua casa não é lugar para um nigger. O racismo aqui é mais sórdido e serve-se de outra forma: com a oferta de uma limonada, um sorriso nos lábios e um caloroso aperto de mão. E não passaram ainda dez minutos de filme quando o último elemento do quarteto de “One Night in Miami” é apresentado, nem mais nem menos do que Malcolm X (Kingsley Ben-Adir). Betty Sanders (Joaquina Kalukango), sua mulher, aguarda-o em casa após um comício na TV particularmente tenso. Apoquenta-se por ele e pelo futuro da família. Malcolm X está no topo da carreira política e é uma referência de combate para as figuras anteriores, em especial para Cassius Clay, que o vê como um mentor espiritual.

As apresentações deste filme “inspirado em factos verídicos” ficam então feitas e com elas também se apresenta a atriz Regina King, cara bem conhecida de “Ray” e de várias séries (a recente e multipremiada “Watchmen” da HBO, por exemplo), e que em 2019 venceu um Óscar por “Se Esta Rua Falasse”, de Barry Jenkins. Esta é a sua estreia na realização, um primeiro passo na matéria em complemento do seu trabalho na televisão, onde Regina tem vindo a construir uma sólida folha de serviço. Mas o ‘invento’ de “One Night in Miami”, pese embora os tais factos que lhe servem de inspiração, vem acima de tudo da pluma e do guião do até agora quase desconhecido Kemp Powers, o mesmo homem que escreveu “Soul — Uma Aventura com Alma” para a Pixar/Disney e que, ao contrário de quase toda a gente, teve um 2020 de arromba. Este filme é na verdade uma adaptação da peça de teatro homónima escrita por Powers sete anos antes e em que tudo nos leva para a noite de 25 de fevereiro de 1964 em Miami, a mesma em que Cassius Clay retirou o cinturão de campeão do mundo a Sonny Liston. Do que se lembrou Powers? De juntar Cassius, Sam Cooke, Jim Brown e Malcolm X num quarto de hotel de Miami Beach. Como há bem pouco tempo recordou um artigo da “Variety” (e ao contrário de muita coisa que já foi escrita), esse encontro existiu mesmo, os quatro homens conheciam-se e estavam na Florida na noite da vitória de Clay (são, aliás, sobejamente conhecidas as fotos de Malcolm X e do pugilista no rescaldo do combate). E do que falaram? Essa é já outra história... Não festejaram seguramente a vitória num quatro de hotel com o debate filosófico que depois nos é apresentado — e é aqui que a imaginação de Kemp Powers entra em jogo.

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