O título deste texto merece uma explicação — e é melhor agora, antes que assomem ideias de vozearia protestante. O título é roubado a um celebrado filme de Ernst Lubitsch, de 1943, e a razão por que aqui surge tem a ver com alguma similitude temática com “A Felicidade das Pequenas Coisas”. Os que viram “O Céu Pode Esperar” estarão lembrados que é a história de um velho senhor que, tendo morrido, se encaminha para os portões do Inferno onde presume ser o seu lugar. Aí, é recebido pelo próprio Satanás, em porte de grand seigneur e tom mais que afável, que o interroga sobre as razões que o terão levado a nem tentar as portas do Céu. O falecido conta-lhe, então, a sua vida — e o filme é essencialmente essa narrativa, com uma irónica moralidade final.
Em “A Felicidade das Pequenas Coisas” também há uma morte, brutal, logo no início. Paolo era um imprudente condutor que insistia em acelerar num cruzamento onde sabia que, durante escassos segundos, todos os semáforos estavam em vermelho. Um dia atrasou-se, milionesimamente, veio um camião de chofre e um choque descomunal mandou-o para o Outro Mundo. Desse lugar de que todos falam, mas ninguém conhece, tão importante que há que o grafar em maiúsculas (Outro Mundo), Paolo só vem a conhecer a fronteira, uma espécie de secretaria onde até há senhas numeradas para aceder aos balcões de atendimento. Ali, veneráveis anciãos, porventura anjos, munidos de cartapácios e de computadores não exatamente de modelo recente, conferem os recém-chegados, provavelmente encaminhando-os para os destinos apurados pelos minuciosos registos de vida.