É mais um remake de um clássico de animação da Disney, agora em filme com atores de carne e osso. Prova aquilo que já se tinha constatado em empreendimentos anteriores: quanto melhor era o original, pior soa o intento de o fazer de novo. O inverso também se afigura verdade. É assim que no prolongado plano de produção da Disney, a mergulhar nos alfobres da casa, este “Mulan” parece destinado a deixar melhores saudades que o seu muito infantil antecessor de que, de facto, se não fossem os DVD (e, agora, a Disney+) para avivar a memória, já ninguém se lembraria. É uma grande produção — 200 milhões de dólares... — e nota-se cada cêntimo, quer na majestade de cenários e de espaços naturais, quer no guarda-roupa, quer na vastidão de figurantes, para já não falar em todas as maravilhas permitidas pelos efeitos especiais digitais onde não há poupança.
O filme, realizado pela neozelandesa Niki Caro, é visualmente espantoso e traz para o coração da produção americana o vigor e o topete dos wuxia, com os seus combates acrobáticos e minuciosamente coreografados e mesmo um sopro de fantástico. No argumento a quatro mãos (que, do filme original, só colhe o fio da lenda chinesa de uma mulher jovem que se disfarça de homem para se alistar nos exércitos imperiais) aparece a figura de uma bela e poderosa feiticeira a tutelar as hordas mongóis invasoras, capaz de mudar de forma e de combater com invulgar letalidade e perfídia. E — querem saber? — é a mais forte personagem do filme, ou não fosse interpretada pela mítica Gong Li cuja presença e porte lhe conferem uma densidade indiscutível. A Yifei Liu, a atriz que interpreta Mulan, não falta carisma, mas o argumento não lhe dá muita carne para todo o tempo que está diante de nós. Gong Li, porque só faz episódicas aparições, tira melhor as suas castanhas do fogo.