Quase no início do sexto episódio desta série, há uma cena definidora. No fim do episódio anterior, Benny, um antigo oponente de Beth, convence-a a vir com ele para Nova Iorque, treinar intensamente antes dela ir ao torneio de xadrez de Paris, onde espera desforrar-se do russo Borgov que lhe infligira humilhante derrota. No termo de uma viagem de 12 horas num Volkswagen que já teve melhores dias, Beth olha o perfil noturno de Manhattan visto do lado oeste e percebemos o seu maravilhamento. É o topo do mundo. Quando chegam a casa de Benny, ela faz menção de subir a pequena escada que conduz à porta de entrada, antes dele apontar para baixo. Benny mora numa cave, um espaço aberto sem paredes interiores, uma espécie de toca muito longe da iridescência dos arranha-céus que víramos antes. É um buraco, é o fundo do mundo. “Gambito de Dama” é toda assim. Ora vai acima, ora vai abaixo, a vida de Beth é aos solavancos que avança — e talvez seja a brutalidade desses solavancos o que atrai os espectadores que estão a fazer de “Gambito de Dama” uma das séries mais vistas da Netflix. Isso e a personalidade da protagonista com quem não há quem não empatize, que todos queríamos ser e ao mesmo tempo não ser, porque entre ter os dons que ela tem e pagar o preço que ela paga, o negócio é de risco. Beth vai de órfã numa instituição austera na América profunda a campeã do Mundo de xadrez em Moscovo — e quase deixa a sanidade como moeda de troca. Beth é um génio mental, mas não é muito boa a relacionar-se com os outros ou a suportar-se a si própria.
Como é possível que uma série que gira em torno de um assombroso talento para o xadrez seja um sucesso? Porque, deveras, o xadrez não é o tema, o xadrez é um MacGuffin. O termo, forjado (ou, pelo menos, enunciado) por Alfred Hitchcock, designa um dispositivo ficcional que parece estar no centro dos acontecimentos, mas que, no fundo, interessa nada. Deve interessar ao espectador, claro, é como um isco arpoado no anzol, é atrás dele que vamos. E deve interessar aos personagens, é o que os move. Mas, de facto, o mais importante é outra coisa, como, de algum modo obscuro e inconsciente, o espectador sabe. Um exemplo clássico de MacGuffin é o urânio traficado em “Notorious”/“Difamação”, filme que Hitchcock fez logo a seguir à guerra, em 1946. É pelo urânio que se organiza a rede nazi, é para a desmantelar que a contra-espionagem americana manda o Cary Grant e a Ingrid Bergman infiltrar essa rede. Na realidade, o que importa não tem nada a ver com urânio, o que importa é que Cary Grant meta a mulher que ama na cama do espião e que este, apaixonado por ela, se deixe perder por amor. Em última instância, o MacGuffin poderia ser uma não-existência, como Hitchcock contava na célebre anedota em que dois homens vão no comboio e um deles leva um grande embrulho. E dialogam: O que leva aí?; Um MacGuffin; O que é um MacGuffin?; É um aparelho para caçar leões nos Adirondacks; Mas nos Adirondacks não há leões!; Então não é um MacGuffin.