Cultura

Os filmes que irritam Trump

01-03-2020

Cinema da Coreia do Sul, das Filipinas e do Iraque em destaque no primeiro sábado da 40ª edição do Fantasporto

Mal soube que o Oscar do melhor filme tinha ido para “Parasitas” de Bong Joon-ho Donald Trump lançou-se numa dupla diatribe: contra as empresas sul-coreanas que fazem concorrência desleal à América e contra aquele tipo de cinema “porque já não se fazem filmes como “E Tudo o Vento Levou”…

Se esta reacção nos diz alguma coisa sobre os horizontes mentais de quem governa o país mais poderoso do mundo, diz-nos também algo acerca do crescente protagonismo da Coreia do Sul, esse país devastado (tal como a do Norte) por uma guerra terrível em 1950/53, que só chegou às democracia e ao verdadeiro progresso económico nos anos 80 (a do Norte ainda não) e que já fabrica carros tão bons ou melhores que os japoneses.

Além disso também dá cartas no panorama do audiovisual (pense-se naquelas estranhas bandas K-Pop de sucesso planetário) e no cinema nem se fala. Para alguns cinéfilos mais distraídos a atribuição do Oscar a “Parasitas” poderá ter sido uma surpresa mas para quem tem acompanhado nestes últimos anos a programação do Fantasporto e a aposta nas cinematografias de países improváveis era algo que mais cedo ou mais tarde havia de acontecer.

Na sessão de sábado à noite, ou seja no horário nobre do Fantasporto, o lugar de honra foi para “Bring me Home” de Seung-Woo-Kim. E com alguma justiça, diga-se. Um filme muito “coreano”, ou seja na aparência lento e arrastado na narração mas mudando de súbito para a violência mais chocante. Em pano de fundo, os problemas de uma sociedade que se modernizou mas ganhou novas inquietações: a pobreza de franjas da população como os pescadores, a corrupção na polícia e o desaparecimento de crianças, parte das quais absorvidas por redes de pedofilia ou trabalho escravo.

No meio de tudo isto uma mãe à procura do filho desaparecido há seis anos e que vai enfrentar tudo, dos abusadores de crianças aos polícias corruptos, sem esquecer a incerteza sobre se a criança que está a tentar salvar é, de facto, o seu filho. Vê-se e percebe-se que os oscares não caem do céu aos trambolhões.

Coisas do diabo

Outra cinematografia que sem festivais como o Fantasporto nunca saberíamos sequer que existe é a filipina. Nos últimos anos, sucessivos filmes passados neste festival trouxeram-nos a abordagem, sempre tecnicamente escorreita e às vezes imaginativa, das lendas e folclores orientais, da violência urbana, da pobreza ou da corrupção. Desta vez o tema foi a possessão diabólica com o filme “Clarita”, de Roderick Cabrido, passado na década de 50.

Com excelentes efeitos especiais e cenas de por os cabelos em pé, retoma temas que encontramos no filme-referência de William Friedkin “O Exorcista” (1973), como o cansaço do velho exorcista, as dúvidas do seu acólito e a forma como, por artes do diabo, os medos e os traumas dos dois sacerdotes e das pessoas que os ajudam, neste caso uma jornalista e um guarda prisional, vão sendo despertados.

Na linha de “O Príncipe das Trevas” de John Carpenter o filme filipino aflora um velho e insolúvel problema: o mal é algo que, tal como o bem, está dentro de nós (o que remete para as escolhas pessoais e o livre arbítrio) ou existe numa dimensão exterior à humanidade, sempre à espera de se poder infiltrar neste mundo para nos atormentar? Como dizia o padre mais novo no rescaldo de uma mais que sofrida vitória sobre o maligno, “se as pessoas soubessem o que está em causa quando, na missa, dizem ‘livrai-nos do mal’…”

Universos paralelos

Neste primeiro dia, referência ainda para “Cry of the Sky”, de Shahram Qadir, produzido no Curdistão iraquiano, um filme de outras latitudes que nos remete para a memória das sucessivas revoltas curdas contra a opressão iraquiana (e agora síria e turca como temos visto), caso das ocorridas nas décadas de 1960 e 70. E onde é abordado o papel da mulher numa sociedade ainda patriarcal.

Num festival destes, um bocadinho de ficção científica não podia faltar. Foi o caso de “Entagled” (emaranhados) do canadiano Gaurav Seth que conta a história de um grupo de jovens cientistas que quebram a barreira entre universos paralelos e trazem para o nosso mundo cópias exactas deles próprios, mas não necessariamente melhores…