Crónica

O tempo passa

Uma crónica sobre o mundo tal como o desconhecemos, dos grandes temas da atualidade às questões insignificantes do quotidiano. Todas as quintas-feiras nos Exclusivos do Expresso

18-02-2021

O tempo passa, minha flor, e nunca aprendemos nada. Quando te disserem que ainda tens muito que aprender, sorri e esquece. Tudo o que tens de saber já o trazes dentro de ti, desde a hora primeira, desde a hora a que não chegam as tuas memórias e em que eras apenas um animal a abrir os olhos para o mundo, à procura da luz, ofuscado por ela, e do alimento, atormentado pelo desejo.

Porque o fundamental, minha flor, não é a luz que encontraste e que outros, mais infelizes, nunca puderam encontrar, nem o alimento que te deram e que outros nunca puderam saborear, o fundamental, minha flor, é o desejo e a fome, na medida única que cada um traz consigo pois muitos, de tanta luz, hão de cegar e a outros nada lhes saciará a fome nem o desejo.

Queria ensinar-te, encaminhar-te, guiar os teus passos, proteger-te, minha flor, porque os pais se convencem de que é essa a sua missão no mundo, ensinar, encaminhar, guiar e proteger os filhos, mas chega o dia em que caímos de joelhos, impotentes, esmagados por um nada, uma dor, e compreendemos que não temos outra missão que não seja a de testemunhar um milagre, uma vida, e que perante essa força somos poeira, somos nada e nada podemos.

Contemplo-te, minha flor, minha alegria, meu martírio, penso no que és, hoje e para sempre, na maneira como nos enfrentas e desafias, a nós, teus pais, como te rendes e pedes colo, como és nossa e ao mesmo tempo tão para lá de nós que dizer “minha filha”, “minha flor”, “minha alegria”, “meu martírio” é quase um abuso porque és filha do mundo, és flor e alegria e martírio do mundo. Não nos pertences, somos apenas as abençoadas testemunhas do teu milagre, do que em ti é único e doce e indomável.

Tens à tua espera um lugar que eu não sei e queria que esse lugar fosse bom e tu, minha flor, fosses feliz nele, que fosses plena, que não perdesses nada pelo caminho até o alcançares, mas nada sei dele nem do caminho que terás de percorrer. Sou cego e faminto como um recém-nascido, todo eu desejo da tua luz, todo eu fome da tua alegria. Nada sei e nada posso. E todo o amor que te tenho nasce dessa ignorância e dessa impotência.

O tempo passa, minha flor, e nunca aprendemos nada. Procura aquele lugar, o dia que te está prometido, a flor que só a tua mão poderá colher, a tua hora. Quanto te disserem que ainda tens muito que aprender, sorri e esquece. E vive.

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