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Coronavírus

Gustavo Carona: “Carreguei sozinho o peso de segurar a força. Quando saía do hospital, caminhava até onde ninguém me via, para poder chorar”

RUI DUARTE SILVA

“Se alguém me contasse esta história, acharia que me estavam a narrar um episódio de ‘Black Mirror’ ou um qualquer filme de ficção científica”: eis o “Diário de um Médico no Combate à Pandemia”, escrito “num estado de embriaguez emotiva” por Gustavo Carona que, em entrevista ao Expresso, enaltece o “orgulho infinito de ser apenas mais um” dos que esteve na linha da frente nas unidades de Cuidados Intensivos. “Era eu contra o mundo. Há pessoas que chegam a casa e têm uma fortaleza bem montada, mas eu não. Eu tinha tudo destruído, mas olhava para dentro e dizia: ‘Tu não vais abaixo. Os teus doentes e os teus companheiros precisam de ti’”. O profissional de saúde resistiu, “com nervos de aço e coração aberto”, sem nunca desmobilizar. “Eu saía do hospital, mas o hospital nunca saiu de mim”

Gustavo Carona nasceu em Toronto há 40 anos e há uma década que é médico intensivista. Cresceu no Porto e saltou para o mundo. Já salvou vidas em situações de máximo desespero nas 13 missões humanitárias que integrou em países dilacerados pela guerra, mas foi na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, que travou a luta mais complicada da sua vida. “Ainda vou demorar algum tempo para conseguir olhar para trás e perceber o que a pandemia fez de mim”, confessa em entrevista ao Expresso. Por enquanto, fez mais um livro, escrito a dois tempos: o da emoção, de quem verte no papel palavras corrosivas como ácido, e o da reflexão, de quem aprendeu a “pensar com o coração” para reivindicar mais “humanidade de grupo”.