Coronavírus

Enfermeiros alertam para cenário catastrófico no Hospital dos Covões: "É impossível separar doentes positivos dos que esperam resultados"

Ordem dos Enfermeiros do Centro adverte que não existem assistentes operacionais que garantam a eficaz higienização dos espaços comuns, nem motoristas suficientes para procederam ao transporte inter-hospitalar, à remoção de cadáveres ou ao transporte de medicamentos no hospital do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

20-01-2021

Após visitar o Serviço de Urgência do Hospital dos Covões - Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra -, segunda-feira, a Secção Regional do Centro (SRCentro) da Ordem dos Enfermeiros (OE) alerta que a “situação é insustentável”, tendo verificado que este serviço se encontra em “completa rutura”.

Ricardo Correia de Matos, presidente do Conselho Directivo Regional da Ordem, e Pedro Lopes, líder do Conselho de Enfermagem Regional, referem que se depararam com um “cenário catastrófico”, em que os enfermeiros já não conseguem garantir a segurança, vigilância e a qualidade mínima que é exigida aos cuidados prestados à população.

“Já foram abertos todos os espaços disponíveis, incluindo a sala de acompanhamento. Atingiu-se o limite ao nível da estrutura física: veem-se doentes admitidos sem estarem garantidas as distâncias de segurança, enquanto outros esperam por uma vaga dentro das ambulâncias”, garante, esta quarta-feira, Ricardo Correia de Matos.

Em comunicado, o responsável da Ordem dos Enfermeiros do Centro refere que durante a visita ficou claro ser “completamente impossível separar doentes positivos para a covid-19 dos doentes suspeitos que aguardam o resultado do teste”, situação que “é absolutamente inadmissível porque promove a criação de cadeias de transmissão”.

A agravar o caos, os responsáveis da Ordem do Centro frisam que não existem assistentes operacionais que garantam “uma eficaz higienização dos espaços comuns, nem motoristas suficientes para procederam ao transporte inter-hospitalar, à remoção de cadáveres ou ao transporte de medicamentos”. Além disso, segundo os testemunhos relatados pela equipa de enfermagem das urgências do Hospital dos Covões à OE, “a partilha de informação com familiares não está assegurada”, motivo pelo qual alguns profissionais de saúde terão já recebido ameaças de agressão.

“Sabemos que há enfermeiros com apenas duas folgas no mês de janeiro. À data, a equipa de enfermagem totaliza cerca de 3500 horas extraordinárias, o que corresponde a um défice de mais de 28 enfermeiros”, afirma o líder da SRCentro, adiantando que no Hospital dos Covões a necessidade mais urgente é o investimento em recursos humanos (enfermeiros, técnicos de limpeza e motoristas), “equipamentos e material, especificamente, oxigénio”.

O reforço das equipas de enfermagem é outra das prioridades da Ordem, que lembra “que sempre estiveram deficitárias, não só neste serviço, mas em todas as unidades hospitalares do país, não foi acautelado pelas instituições políticas, mantendo o país no segundo lugar com o pior rácio enfermeiro/utente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)”.

Ricardo Correia de Matos alega ainda não compreender como, “em plena pandemia, entre os meses de julho e dezembro 2020, o Governo deixou emigrar mais de 1000 enfermeiros, negando aplicar medidas similares aos parceiros europeus, quando alteraram os padrões remuneratórios e procederam à contratação de todos os profissionais disponíveis, inclusive, enfermeiros portugueses”.