Coronavírus

Pedro Hispano já formalizou acordos de cirurgias com dois hospitais privados 

Rui Duarte Silva

Unidade Local de Saúde de Matosinhos vai transferir as intervenções de cirurgia geral, de ortopedia e oftalmologia para os hospitais do Grupo Trofa Saúde e da Ordem de São Francisco para alargar a sua capacidade de resposta à covid-19 e evitar mais derrapagens nas listas de espera. Hospital regista 2.768 cirurgias e 34. 740 consultas em atraso

28-10-2020

O presidente do Conselho de Administração (CA) do Hospital Pedro Hispano já formalizou, com a autorização da ARS-Norte, dois acordos com grupos privados para libertar camas e profissionais de saúde para o combate ao surto, que neste momento ultrapassa em Matosinhos os mil infetados e mais de 3000 casos em vigilância ativa. António Tavares Gomes garante ao Expresso que a Unidade Local de Saúde não está no limite de capacidade, “mas poderá entrar em rutura se não fossem acauteladas desde já soluções alternativas”.

Os protocolos para realização de cirurgias com unidades privadas começaram a ser delineados há duas semanas, tendo os acordos de transferência de pacientes sido fechados com o Grupo Trofa Saúde, na unidade de Leça da Palmeira, e com a venerável Ordem de São Francisco, no Porto, que já acolhia doentes com alta de cirurgia, mas a necessitar de retaguarda social. Tavares Gomes refere que para já estão previstas nos dois hospitais privados cirurgias de clínica geral, ortopedia e oftalmologia, estando ainda a ser equacionadas as de especialidade de urologia.

“Não temos recursos humanos nem camas para internar doentes covid e não covid a necessitar de cirurgias”, adianta Tavares Gomes, que alerta que não é possível continuar “a prejudicar pacientes com cirurgias agendadas”. As intervenções deverão começar a ser efetuadas ainda esta semana ou no início da próxima, com cerca de 100 cirurgias programadas por semana. De acordo com o presidente do CA do Pedro Hispano, nesta Unidade Local de Saúde foram adiadas desde o início da pandemia 2.768 cirurgias e 34.740 consultas, “umas por falta de recursos internos, outras porque os pacientes testaram positivo ou estiveram em quarentena”.

As operações nos privados serão, contudo, realizadas por cirurgiões e anestesistas do Pedro Hispano. “Não temos profissionais de enfermagem que cheguem para os blocos operatórios e não nos podemos dar ao luxo de ter equipas médicas paradas”, adianta o responsável hospitalar, que alega ter antecipado as condições para futuros acordos com o sector particular e social ainda antes da Entidade Reguladora da Saúde e da ministra Marta Temido terem admitido “alargar as respostas da saúde aos privados”.

No caso de os pacientes operados no privado que necessitem de mais de dois dias de internamento “devido a complicações” serão transferidos para as instalações do Pedro Hispano. “Como num hotel, a reserva de quartos acordada é no máximo de dois dias”, acrescenta Tavares Gomes, que adianta que parte das intervenções a efetuar já se encontravam protocolas ao abrigo dos cheques-cirurgia. “No universo das cirurgias em atraso também se contam pacientes já podiam ter sido operados e não foram porque preferiam serem tratados aqui”, especifica.

“Com a atual curva pandémica daqui a 15 dias estaríamos para lá do limite das nossas capacidades”, frisa Tavares Gomes, que diz que o que a administração do Pedro Hispano “acautelou preventivamente o caos”.

Neste momento, encontram-se nos cuidados intensivos do Pedro Hispano 13 doentes com covid-19, sendo a capacidade instalada nesta unidade de 21 pacientes, o dobro da que existia antes da primeira vaga. Nos cuidados intermédios, estão seis infetados, serviço com capacidade para 25 camas, 12 das quais na nova ala, instalada num antigo ginásio de medicina física e reabilitação, inaugurada sexta-feira.

Na enfermaria, mantêm-se 43 internados, com espaço capaz de acolher até 74 doentes, embora a área seja extensível até mais de 100 pessoas. O problema maior é agora de falta de recursos humanos, sobretudo de enfermeiros e auxiliares, equipa que conta com 20 infetados. Serviço de urgência, consultas e algumas cirurgias vão manter-se nos serviços do Pedro Hispano, bem como as valências de pediatria, que tem desde o início da pandemia percursos de circulação distintos das alas covid-19.