Coronavírus

Covid. Cantar em coros? Talvez não: “As pessoas à nossa volta apanham com um chuveiro de partículas, mesmo que não se apercebam”

Franco Origlia/Getty Images

Habitualmente, cerca de 70 pessoas cantariam no coro das celebrações no Santuário de Fátima. Este ano, haverá apenas 10 a cantar num espaço próprio, com dois metros de espaçamento entre elas. Na Alemanha, por exemplo, o governo proibiu os coros em cerimónias religiosas. Porquê? Cantar, como rir, tossir, espirrar ou tossir, é "uma atividade libertadora de gotículas e aerossóis" que propagam um vírus no ar. Por concentrar várias dezenas de pessoas no mesmo sítio, há especialistas que até recomendam que os coros "não deviam ser permitidos"

12-05-2020

Sem peregrinos e com o recinto fechado, as celebrações de Fátima desta terça e quarta-feira, 12 e 13 de maio, terão apenas D. António Marto, o bispo de Leiria-Fátima, os sacerdotes e funcionários do Santuário, que o acompanharão nas celebrações litúrgicas, e mais um elemento, o coro. Mesmo quem dará voz cantada, contudo, será diferente - o coro terá 10 pessoas, ao invés das cerca de 70 habituais.

O gabinete do Santuário explicou ao Expresso que o coro cantará “no seu espaço próprio”. Manterá, também, “todas as distâncias físicas recomendadas pelas autoridades de saúde”, ou seja, os dois metros de separação entre pessoas recomendados pela Direção-Geral de Saúde (DGS). Acrescentou ainda que o coro não terá “contacto com os restantes celebrantes”, mas, no caso, esse não seria o maior perigo vindo da presença de um coro.

Seria o facto de haver várias pessoas juntas, a cantar.

Porque cantar é como tossir, rir, espirrar ou falar. Todas são uma atividade libertadora de gotículas respiratórias e “ao cantar, uma pessoa vai estar a libertar não só aerossóis, mas também gotículas, que vão poder cair na pessoa que está à frente”, começa por explicar Raquel Duarte, ao Expresso. “As pessoas que estão à nossa volta estão a apanhar com um chuveiro, mesmo que não se apercebam. Por isso é se recomenda a distância de 1,5 metros ou 2 metros”, resume a ex-secretária de Estado da Saúde e pneumologista do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho.

Seja religioso ou integrado numa orquestra, um coro, por norma, aglomera várias dezenas de pessoas no mesmo sítio. Ao cantarem, estão a projetar a voz e a realizar respirações mais profundas. Tendo na acústica um aliado necessário e nas cordas vocais o utensílio, “é difícil que as pessoas estejam distanciadas umas das outras”, caso contrário, “não seria um coro”, nem elas “podem colocar uma máscara porque estariam a abafar a voz”, explicou a, também, investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.

A existência de um coro, como o conhecemos e imaginamos, “não se coaduna com as regras de distância preconizadas como medida importante de redução da transmissão de covid-19”, resume Raquel Duarte. Ter várias pessoas juntas, a cantarem, é criar um ambiente confortável à propagação do novo coronavírus se, entre elas, houver um caso positivo.

Em tal cenário, Celso Cunha, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, adverte que “o risco de contágio aumenta consideravelmente e a presença de um único elemento infetado pode representar um fator de risco muito elevado para todos os outros intervenientes”. Defende o virologista que é até “avisado recomendar que, na atual situação, esse tipo de atividades não seja sequer permitida”.

Projetar a voz faz com que “a maior força e velocidade com que o ar é expelido” permita que as gotículas ou aerossóis contaminados “se propaguem a uma distância superior”, aumentando “o risco de contágio para indivíduos que se encontrem mais afastados”, expõe, ainda, o virologista Celso Cunha. O canto, insiste, “pode contribuir para que tal suceda”, tal como “o exercício físico intenso, um grito, tosse ou espirro”.

Em grupo, não

Cantar em coros, portanto, é uma atividade a contrariar para o bem da transmissibilidade do SARS-CoV-2, a que se tornou usual chamarmos de novo coronavírus. Mas já houve alguma experiência para medir isso, enquanto um aglomerado de pessoas cantava?

Que Manuel Carmo Gomes saiba, não. Realça o epidemiologista, contudo, que tudo se trata de raciocínio lógico.

Diz o também professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que, colocando o ato de cantar a par de tossir, espirrar ou gritar, “o que se sabe” em relação à propagação do novo coronavírus do ainda é pouco” e resume-se ao estudo publicado no New England Journal of Medicine, a meio de abril, que estimou o tempo de vida infeccioso de partículas aerossol do novo coronavírus no ar: três horas.

Cantando, estamos a emanar gotículas respiratórias ou aerossóis, ambas de tamanho microscópico, sendo as primeiras mais pesadas e de maior dimensão. No caso do vírus da gripe ou do sarampo, o natural nas partículas é “fazerem uma parábola no ar e, com o efeito da gravidade, irem parar ao chão, 1,5 metros ou 2 metros à nossa frente”, resume ao Expresso. Daí a distância de segurança recomendada pela DGS.

Ora, sobre qualquer partícula emanada da nossa boca atuam duas forças - da gravidade, que a leva até ao chão, e da fricção, que “a trava à medida que fricciona contra as moléculas do ar”. Quanto maior for a humidade relativa no ar à nossa volta, menos água perde a partícula e “vai parar ao chão, porque está mais pesada e é atraída pela gravidade”, explica Manuel Carmo Gomes.

Mas, em espaços fechados e com sistema de ar condicionado, que seca o ar, essas partículas vão perder água, a fricção será menor e ficarão mais tempo a pairar. Podendo o tempo de vida dos aerossóis do novo coronavírus chegar às três horas, e fiando no que a ciência sabe sobre o vírus da gripe ou do sarampo, “não há razão nenhuma para acreditar que com o SARS-CoV-2 é diferente”. Em princípio, conclui o epidemiologista, “será a mesma coisa”.

Os coros, lá fora

Em Mount Vernon, cidade uns 100 quilómetros a norte de Seattle, na ponta noroeste dos EUA, existe o grupo de coro de Skagit Valey, onde, a 10 de março, cerca de 60 pessoas se reuniram. Dias antes, todas receberam um e-mail de Adam Burdick, condutor do coro, avisando-os que, apesar “do stress e do constrangimento devido às preocupações com o vírus”, o ensaio semanal continuava marcado.

“Espero que muitos de vocês lá estejam”, escreveu. Dos 121 elementos do coro, metade apareceu. Havia gel desinfetante à porta e ensaiaram durante cerca de duas horas e meia. Ninguém tossiu ou espirrou, vivalma aparentou estar doente e oito dos presentes, ouvidos pelo “LA Times”, garantiram que toda a gente fugiu a abraços e apertos de mão.

Havia seis filas de 20 cadeiras, espaço de sobra para os 60 indivíduos manterem a distância de segurança. Na altura, as medidas de restrição do estado de Washington proibiam, apenas, aglomerados com mais de 250 pessoas. No início de abril, quase um mês após o ensaio, 45 dos presentes no ensaio apresentavam sintomas, 28 tinham testado positivo por covid-19 e dois tinham morrido.

Na Alemanha, onde o governo tem, nas últimas semanas, aliviado as medidas de confinamento, as igrejas reabriram a 3 de maio, mas, além das regras de distanciamento e do número de pessoas que podem estar em espaços fechados, manteve-se uma restrição - não se pode cantar durante cerimónias religiosas. “Evidências mostram que, enquanto uma pessoa canta, as gotículas do vírus aparentam viajar particularmente longe no ar”, disse Lothar Wieler, diretor do Instituto Robert Koche, a agência governamental para o controlo de doenças.

A Conferência de Bispos Católicos reagiu à medida, defendendo, em comunicado, que "se as regras de distanciamento social forem respeitadas, não há razão para não haver o canto".