Coronavírus

Covid-19. Democracia e informação livre: os mais poderosos antivirais

SAM PANTHAKY/Getty

Há estudos que provam que a democracia salva vidas durante grandes desastres e surtos virais, mas porquê? A informação é um dos fatores mais importantes, a confiança nas autoridades é outro que deriva do primeiro, mas há muitos sítios onde ambas escasseiam

19-03-2020

Ouvimos dizer muitas vezes que presidentes com agendas securitárias como Rodrigo Duterte, nas Filipinas, ou Jair Bolsonaro, no Brasil, foram eleitos porque as respetivas populações se sentiam desprotegidas frente a uma escalada da violência: roubos, assassínios, tráfico de droga. Isto levanta uma pergunta óbvia: o que exige um povo, acima de tudo, dos seus governantes? A resposta também parece óbvia: segurança.

Segurança contra o terrorismo, que a extrema-direita associa aos migrantes de origem muçulmana nas suas mais-do-que-bem-sucedidas campanhas eleitorais; contra a violência nos bairros de maioria negra em Nova Iorque, que acaba por legitimar, legal se não moralmente, que os polícias parem e revistem, à frente de todos, cidadãos negros e latinos sem razão prévia; contra um vírus que ninguém vê mas que está a matar gente por todo o mundo — em alguns países, como Itália, a uma velocidade de centenas de pessoas por dia na última semana.

Para proteger a população, diferentes países têm desenvolvido diferentes estratégias mas o que distingue as abordagens é algo muito básico: as credenciais democráticas, ou falta delas, de cada governo. Podemos e devemos olhar com atenção para o que se passou na China, pois é provável que a reclusão imposta aos cidadãos nos tenha dado a todos, deste lado, umas três semanas de preparação para lidar com a pandemia.

Há, porém, valores e hábitos que são muito mais difíceis de dissolver nas sociedades democráticas — para que outros mais restritivos tomem o seu lugar —, até porque na Europa instrumentos como o recolher obrigatório ou a necessidade de salvos-condutos para poder circular traz memórias de um passado tortuoso.

Os italianos isolados não parecem muito preocupados, para já, com a quarentena forçada. Vito Fiorino, de 70 anos e preso numa casa em Milão, que o Expresso conheceu na ilha italiana de Lampedusa, escreveu-nos a dizer que “muita gente ainda não considera as medidas suficientemente restritivas” e que “a necessidade proteção de uma sociedade em alturas como esta é o mais importante”.

A situação é “perigosa, muito perigosa” no local onde se encontra e, na sua opinião “a democracia também serve para que o Governo possa tomar com legitimidade decisões muito restritivas - há um Governo para nos proteger, mas não têm querido tomar essas medidas mais extremas, apesar de a população o estar a pedir”.

Esse detalhe chamada diálogo

No início da pandemia, a China ocultou à sua população que existia um vírus com alucinante capacidade de propagação. A história triste do médico Li Wenliang, que quis avisar os seus superiores e acabou calado pelas autoridades e, mais tarde, vítima mortal da doença que a China não quis admitir, enfureceu os chineses, que o tornaram herói.

A resposta do país à propagação do vírus acabou elogiada por todo o mundo — escolas fechadas em horas, aviões no chão, bairros inteiros patrulhados pela polícia, ruas desertas se não fosse pelos ubíquos robôs remotamente comandados a expelir fumo desinfetante —, mas quantas pessoas poderiam ter sido salvas se os testes tivessem sido feitos mal surgiu a suspeita de um novo vírus, em novembro? Teria chegado a todo o mundo com esta força?

“Nos regimes mais fechados, a informação é toldada pela ideologia e, por isso, menos fidedigna”, explica ao Expresso o politólogo António Costa Pinto, autor de livros sobre vários tipos de totalitarismo. Por exemplo, explica, “a China ou a Venezuela não são regimes como a Coreia do Norte, que é totalmente totalitária; ao contrário, a informação na Venezuela circula com relativa facilidade, ou pelo menos há formas de obtê-la por canais não oficiais”.

A democracia tem essa faceta de exigir diálogo para se alcançar qualquer decisão. A Noruega está há sete dias a discutir onde construir um hospital, a China demorou menos de duas semanas a construir um de raiz no meio de um descampado na cidade de Wuhan, onde o vírus terá começado a infetar humanos. Nos últimos 20 anos, explica Costa Pinto, “a grande maioria dos regimes autoritários transformou-se em regimes com maior transparência de informação e decisão”.

Onde se distanciam das democracias “é na relação entre Estado e sociedade, ou seja, exercem muito maior controlo sobre a sociedade civil e, portanto, há tendência para impor modelos autoritários em caso de catástrofe, enquanto os regimes democráticos precisam de estados de emergência, reuniões entre órgãos de soberania e tantas outras coisas”.

A informação é crucial, porque só assim os epidemiologistas conseguem prever a trajetória de um vírus, mapear a sua transmissão e dizer à população onde estão os focos de infeção e por que razão é importante ficar em casa.

Um estudo recente da revista “The Economist”, publicado este mês, mostra que as democracias têm taxas mais baixas de infeções em pandemias, independentemente do nível de riqueza dos cidadãos. Utilizando informação da Base de Dados Internacional de Catástrofes, mantida por investigadores da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, a revista analisou todas as epidemias desde 1960, de um surto de varíola no Nepal em 1963 até ameaças mais recentes, como o zika e o ébola.

Constatou-se uma tendência distinta: seja qual for o nível salarial, os habitantes de democracias morrem menos em surtos epidémicos. Em países autoritários como a China, epidemias passadas mataram cerca de seis pessoas por milhão de habitantes. Quando analisamos os cidadãos de democracias, com níveis equivalentes de rendimentos, notamos que morreram quatro por milhão.

Perigo: contaminação por boato

O que se passa na Venezuela “é que a informação até existe, mas já não há articulação entre Estado e sociedade e o clima de generalizada falta de médicos, medicamentos e cuidados de saúde provoca desconfiança generalizada na população”. É por isso que as democracias são “muito melhores a lidar com este tipo de catástrofes ou outras: as pessoas não têm razão para achar que o Governo está a mentir, enquanto a têm nos regimes antidemocráticos”.

É aquilo a que Costa Pinto chama “verdade informal”, um “enorme problema nestas alturas”, já que “a sociedade sabe que parte do que está a ser transmitido pelo Governo é mentira ou apenas parcialmente verdade, mas pode não ter acesso a mais nada”, como acontece nalguns países onde a utilização da internet não é totalmente livre. No lugar da informação “germina o boato, que é uma estrutura de comportamento muito mais forte em ditadura na eventualidade de uma crise pandémica”.

Consultas secretas

“A situação é complexa porque a informação que chega por vias oficiais é muito, muito pouca. No hospital central de Maracaibo dizem-nos que não há casos, que os que há foram para casa, confirmados mas assintomáticos. Onde estão para os acompanharmos? Não sabemos”, diz ao Expresso ao telefone uma médica do estado de Maracaibo que não quis dar o nome.

Como tudo, na Venezuela também as máscaras estão “ao preço de vários salários mínimos”. O pessoal médico não está protegido, os próprios hospitais não têm esses materiais, confirma a médica. Além disso, falar do vírus não é coisa que alegre o Governo de Nicolás Maduro. “Tenho dois colegas que foram presos por insinuarem que descobriram casos de coronavírus. Os médicos dão consultas secretas ou então, quando abrimos coisas como clínicas ambulantes, não avisamos as autoridades, caso contrário não nos deixam trabalhar e ameaçam fechar as ONG que nos ajudam.”

Em África a situação também não é clara. Alguns países estão a reportar casos, outros não, mergulhando as suas populações na ilusão de que nada se passa ou num pânico generalizado que conduz a um clima social tenso, à xenofobia, ao açambarcamento, à subida de preços. “Em África, por vezes estas crises têm dimensões duplas: a fraqueza do Estado em si e o clientelismo, também próprio de sociedades em que tudo é centralizado e estatizado e onde quem tem acesso à saúde é apenas a elite”, diz Costa Pinto.

Na Síria, como o Expresso escreveu esta semana, oficialmente não há casos e o Governo também tenta impedir os profissionais de saúde de falarem sobre a covid-19. A 10 de março, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede em Londres, informou que houve surtos da doença nas províncias de Tartus, Damasco, Homs e Latakia, mas o regime de Bashar al-Assad terá emitido uma ordem “severa” a proibir o pessoal médico de discutir o assunto.

Um médico desta zona, que falou ao Expresso mas que também não se quis identificar por estar a exercer numa zona do país já reconquistada pelo Governo, referiu: “O vírus está cá, mas como não temos condições em todos os hospitais para fazer testes, muitos casos que chegam aos hospitais podem ser coronavírus, mas também podem ser gripe ou outra síndrome respiratória, por isso não sabemos quão disseminado está”.

Diagnósticos enganadores

No Sueste Asiático vários países preocupam: Myanmar, onde oficialmente não há casos, apesar da extensa fronteira terrestre com a China, como Laos, Timor-Leste ou o Brunei, todos com ligações aéreas diárias para o epicentro da epidemia, Wuhan. Ou o Camboja, onde a negligência dos governantes é quase total. Hun Sen, o perene primeiro-ministro, não quer alienar o mais importante parceiro comercial da região, a China, e até fez uma visita ao país no meio no surto.

Daniel Ferreira vive desde 2014 em Phnom Penh, capital do Camboja. Diz ao Expresso que a informação oficial é muito pouca e que as pessoas acabam por se informar através da internet. Apesar disso, “a cidade ontem e hoje tem estado muito mais vazia, por isso em algum lado as pessoas se têm informado”. Conta uma história: “Um navio que não conseguiu autorização para desembarcar noutros portos acabou por vir para o Camboja e o primeiro-ministro foi receber as pessoas com apertos de mão e dizer para tirarem as máscaras, pois não havia qualquer perigo”.

Mais grave é o que Daniel relata a seguir. “Pouco depois de se começar a ouvir falar desta doença, várias pessoas foram internadas no hospital com sintomas muito parecidos, mas oficialmente o que acaba noticiado é que sofriam de outra coisa qualquer.”

Estes momentos são perigosos porque dão a líderes como Viktor Orbán, da Hungria, ou Yoweri Museveni, no Uganda, o poder para controlar a população com uma desculpa; e a outros políticos, que vivem em regimes mais liberais, como Marine Le Pen, em França, ou Matteo Salvini, em Itália, armas para argumentar que tudo o que vem de fora é mau. Sejam vírus ou pessoas.