&conomia à 2ª

O emprego do futuro

09-11-2020

No meio da pandemia, que a todos atormenta, é habitual ouvirmos, apesar de tudo, as mentalidades alteraram-se e passámos a valorizar novos métodos de trabalho e de consumo, mudando assim parte dos nossos estilos de vida.

Descobrimos que o teletrabalho é possível, se bem enquadrado e legislado, nos sectores de actividade que o possibilitam. Também descobrimos que já conseguimos receber em casa qualquer produto essencial ou não, à distância de uma qualquer aplicação, sobretudo nos grandes centros urbanos, já nas vilas e aldeias do nosso “interior” as coisas são mais difíceis.

Ora, estas “descobertas” devem ser acompanhadas de uma reflexão sobre o futuro do trabalho. Se todos vão para casa, de repente, é mais perceptível quem faz ou não falta dentro das organizações. Para lá das pessoas, percebemos também quais as funções essenciais e quais as que podem ou não ser realizadas por robots ou por algoritmos, por exemplo.

Será que estamos, ao dia de hoje, a formar, a preparar com as ferramentas e competências certas, as pessoas, sobretudo os mais jovens, para as profissões de futuro? E que profissões são essas?

É importante ouvir os decisores e gestores de grandes empresas e perceber quais as necessidades dessas organizações. Quais as carências que sentem. Por exemplo, no sector bancário. Hoje podemos realizar quase todas as transações sem nos deslocarmos fisicamente a um balcão. Hoje, a necessidade de mais formação em tecnologias, em competências de segurança informática e conhecimento em inteligência artificial são cruciais. Hoje, a aposta deveria ser em mais cursos de engenharia informática, em análise de dados e no chamado data mining, em mais formação sobre Inteligência Artificial, em mais parcerias com instituições internacionais, mas também proximidade entre as universidades, politécnicos e escolas profissionais com o nosso tecido empresarial, existem alguns casos de sucesso (por exemplo em Aveiro e Braga, mas poderia citar outros), que urge tornar mais abrangentes à escala nacional.

O caminho será o da digitalização, é certo, mas também será o de encaminhar as pessoas para as oportunidades do futuro, pois nem todos os sectores de actividade irão dispensar a participação e o trabalho humano. Tanta tecnologia, tanto avanço, até já temos artigos na imprensa escritos por máquinas sem presença humana, como surgiu, em Setembro, no The Guardian. No entanto, não estamos a condenar o elemento humano ao desperdício, muito menos à inutilidade. Eu acredito na liberdade de escolha, mas é importante o bom e próximo acompanhamento associado à orientação vocacional dos mais jovens na identificação e selecção, dentro das escolhas possíveis, do que realmente querem e estão aptos para fazer. Juntar vontade, com as necessidades do mercado de trabalho é a chave do futuro, sobretudo um futuro melhor, onde se possa livremente desenvolver os talentos num bom ambiente laboral, com espaço para a vida pessoal e com a sempre necessária condigna remuneração.

Nem de propósito, a SIC passou uma reportagem bem interessante onde Gerd Leonhard, alguém que tem falado sobre o futuro do trabalho e tem um livro bem pertinente: “Tecnologia versus Humanidade - O Confronto Futuro Entre a Máquina e o Homem”. Este autor aponta para o fim de muitas profissões, para a diminuição da carga laboral das pessoas, bem como da necessidade de libertar as pessoas para pensar, discutir e inovar. Aliás tem uma frase que nos faz pensar: “Os filhos dos vossos filhos não saberão conduzir, não saberão o que é um livro e falarão centenas de línguas através dos tradutores digitais”.

Era sobre isto que o país deveria estar a pensar. A pensar e a investir no futuro. A sério. Em novas instituições de ensino, em novos currículos académicos, em formas de dotar as pessoas de mais competências e ferramentas que alarguem o espectro, não em modos de aprendizagem que limitam as opções e as escolhas. É no talento que está a chave de diferenciação do futuro. Se os robots chegam para substituir as pessoas, então a diferenciação deverá ser pela capacidade de pensar e de fazer diferente.