I. Portugal está à beira de pedir ajuda ao FMI. Se não for agora, será para o ano. Porque - se as contas do OE2011 estiverem certas - Portugal precisará de colocar dívida no valor de 45 mil milhões de euros. Como é óbvio, não se pode pedir este dinheiro a taxas acima dos 6% (e nós estamos para lá dos 7%). Isto, meu caro leitor, não me enche de vergonha. Todos os estados passam por dificuldades. Todos os estados pedem ajuda, de uma maneira ou outra. E, acima de tudo, é preciso relembrar que a economia não é o coração de um país, não é o coração de uma sociedade. O nosso coração está no estado de direito, está na dignidade que deve reger as relações entre Estado e cidadãos e na "amizade cívica" que deve ligar as pessoas, os vizinhos. Ora, nos últimos dias, apareceu em Portugal uma ideia vergonhosa que abala este coração institucional e cívico: a PGR fez uma página na internet para receber denúncias anónimas sobre corrupção. Pedir ajuda ao FMI não me envergonha. Mas isto envergonha-me como português.
II. Esta página transporta uma instituição central, a PGR, para o meio da lama, para o meio da mais cobarde denúncia. Sejam bem-vindos ao reino da chibaria internética e do ressentimento legitimado pelo mundinho virtual: para o 'João' vai ser tão fácil lixar a vida ao 'José', esse malandro que subiu na empresa em detrimento do 'João'. Para o 'Joaquim' vai ser tão fácil tramar a 'Joana', a menina do 2.ºesquerdo que ficou indiferente aos seus avanços. Ao fazerem isto, o PGR e o DCIAP transformaram-se numa vergonha-institucional-a-céu-aberto. Por aqui se vê o conceito de "liberdade" que existe na cabeça dos nossos queridos procuradores. Por aqui se vê o respeito que os procuradores têm pelos seus concidadãos. Por aqui se vê a ideia de "investigação" que vai na cabeça destes "investigadores". Ao pé disto, o FMI é brincadeira. O FMI fica cá uns meses, ou um ano. Estes procuradores estão cá, ficam cá, não se vão embora, e nunca são responsabilizados.