A Tempo e a Desmodo

Os abracinhos de Sócrates a Kadhafi faziam sentido?

28-02-2011

I. José Sócrates e Luís Amado têm razão numa coisa: seja qual for o seu regime, a Líbia é do interesse estratégico português. Sobre isto, não há discussão. O mesmo pode ser dito sobre a Argélia. Muitos anjinhos discordam desta asserção. Estamos a falar dos puros, dos donos do coração e da moral. Mas, curiosamente, estes puros também gostam do duche de água gente (made in Argélia) e do seu popó (motorizado com uma coisa made in Líbia).

II. Porém, existe aqui um problema: proteger um interesse estratégico não é o mesmo que andar aos beijinhos com um ditador. No catálogo da política externa, existem formas clássicas de protecção de interesses nacionais em regimes pouco decentes. Para começar, existe a diplomacia, essa hipocrisia organizada que foi inventada, precisamente, para ultrapassar a questão das diferenças de regime. A sinceridade bushista é uma treta: nós devemos manter um diálogo diplomático mesmo com aqueles países que nunca convidamos para nossa casa. Ora, a proximidade entre Lisboa e Tripoli devia ter sido mantida através das embaixadas, e não através de viagens constantes do nosso primeiro-ministro à Líbia (a tenda armada de Kadhafi em Oeiras também não ajuda). Ao dar abracinhos a Kadhafi, Sócrates comprometeu a nossa democracia. 

III. Depois, convém fazer uma distinção que tarda a ser compreendida em Portugal: uma coisa são os negócios, outra coisa é a política. As nossas empresas podem fazer negócios com as ditaduras. Toda a gente faz isso. Aliás, uma das melhores formas de abrir uma ditadura é através do comércio com o exterior. Porém, as relações económicas não devem determinar um amiguismo político entre uma democracia e uma ditadura. Existe uma fronteira entre a economia (feita pela sociedade) e a política (feita pelo Estado). Um político tem deveres éticos que um empresário não tem. Ou seja, Portugal, enquanto democracia, deve evitar apaparicar regimes pouco decentes. Problema? Quando se olha ao espelho, José Sócrates vê "o motor da economia nacional", vê o "empresário de Portugal". Naquela cabecinha, o Estado é o motor de tudo, e, por isso, ele pensa que tem de liderar comitivas de empresários com o objectivo de meter "cunhas" nos ditadores amigos. Ou seja, a nossa política externa é um reflexo da nossa política interna. Pior: esta vergonha externa (legitimámos ditaduras) é o resultado da vergonha interna que marca da nossa política doméstica: a promiscuidade entre política e negócios.

IV. Outro problema: A diplomacia portuguesa, liderada por Luís Amado, queria à força um lugar no Conselho de Segurança da ONU. Durante vários anos, Lisboa namorou todas as ditaduras africanas, sul-americanas e do Médio Oriente. Uma vergonha diplomática. Uma vergonha que originou, aliás, o caso Carrilho. Andámos a bajular ditaduras por um prato de lentilhas. Resultado? Fomos apanhados em contramão pela História. 

PS: um pormaior: há uns meses, Sócrates andou pela Líbia a tentar vender dívida portuguesa. Um ato patriota.