Nuno Teotónio Pereira, arquiteto e cidadão, a caminho dos 90 anos, foi homenageado por um numeroso grupo de amigos que se reuniram na tarde de 5 Fevereiro na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa. O local não foi escolhido por acaso: Nuno Teotónio Pereira sempre esteve associado ao grupo dos católicos progressistas que combateram a ditadura. Por outro lado, é, juntamente com Nuno Portas, co-autor daquela igreja, declarada em 2010 monumento nacional.
"Acabar com situações de clamorosa desumanidade"
Manifestamente emocionado, Nuno Teotónio Pereira agradeceu, no final, as palavras, abraços e presenças de todos quantos o quiseram homenagear.
"Estou velho", afirmou no seu tom de voz rouca e inconfundível. "Estou a chegar aos 90 anos. Há órgãos que me estão a falhar. Um deles é a memória, que se está a desfazer como pó, o que me causa um certo sofrimento. Além da perda da visão. Mas estou muito contente, porque esta sessão, tendo sido anunciada como de homenagem à minha pessoa, e não deixando de o ser, fez também justiça a todos aqueles que conhecemos e lutaram naqueles anos difíceis" contra a ditadura.
O cidadão não quis apenas evocar o passado. "Apelo a todos para que, em conjunto ou individualmente, façam o que for necessário, mesmo com risco, para acabar com situações de clamorosa desumanidade que existem no nosso país, muitas vezes mesmo ao nosso lado".
Câmara de Lisboa prepara livro
Nuno Teotónio Pereira confessou ainda o seu "amor" por Lisboa. "É uma cidade de que gosto muito". E mostrou-se lisonjeado com a decisão da Câmara Municipal de Lisboa de editar em breve um livro com textos seus acerca da capital.
"A modéstia dos que são verdadeiramente grandes"
O ex-Presidente da República Jorge Sampaio foi o principal orador. Dirigindo-se ao "cidadão", destacou entre as suas muitas qualidades a "modéstia dos que são verdadeiramente grandes". Falando de improviso mas a partir de notas que preparara, Sampaio sublinhou ainda "a independência do seu percurso", a ponto de considerar que Nuno Teotónio Pereira "não é apropriável por ninguém".
O ex-presidente da Câmara de Lisboa agradeceu ao arquiteto o quanto lhe ensinou sobre a capital. Da sua vasta obra, que inclui três prémios Valmor, Sampaio destacou a igreja de Almada, o bairro de Olivais Norte e o edifício "Franjinhas" na Rua Braancamp - além, claro está, da igreja que serviu de cenário à homenagem e a que se juntaram numerosos católicos, entre os quais os padres Bento Domingues e Jardim Gonçalves.
No plano político, Sampaio não pôde deixar de evocar o dia 26 de Abril de 1974, quando Nuno Teotónio Pereira foi um dos numerosos presos políticos que foram finalmente libertados da prisão de Caxias. "O Nuno permaneceu sempre a mesma pessoa através de décadas, nos mesmos valores, nos mesmos princípios", afirmou Jorge Sampaio, chamando a atenção para a sua "constância e intemporalidade".
Livro sobre a cooperativa 'Confronto'
Como aconteceu a numerosas iniciativas de carácter cultural ligadas à oposição, Nuno Teotónio Pereira também esteve associado àquela cooperativa. O mesmo aconteceu com a sua antecessora lisboeta "Pragma", de que foi um dos principais dirigentes, o que, aliás, lhe custou uma das várias prisões pelo regime de Salazar e Caetano. "O Nuno Teotónio Pereira esteve sempre, sempre presente em tudo: pela esquerda ou pela direita, por baixo ou por cima" - recordou Brochado Coelho.
Homenagem convocada pela Internet
A primeira intervenção da sessão pertenceu a Joana Lopes, um dos membros da organização e cujas convocatórias foram feitas praticamente através da internet. Também ela oriunda dos sectores católicos progressistas, Joana Lopes afirmou, dirigindo-se a Nuno Teotónio Pereira: "O estarmos aqui hoje é a prova que ainda não baixámos os braços".